Sete dias na praia

 Olá, apreciadores da leitura!

Vou deixar aqui, na íntegra, um conto que escrevi chamado Sete dias na praia


Março de 1984

 

Hoje seria um dia como outro qualquer se não fosse essa carta que seguro em minhas mãos com os dedos levemente trêmulos. Ele vai voltar. E teve o cuidado de me comunicar isso. Por um longo tempo, achei que ele só fosse existir em minhas lembranças. Mas, pelo visto, eu estava enganada. Muito enganada. O passado voltou me trazendo as recordações de forma tão nítida que parece que foi ontem a última vez que o vi. Mas já se passaram quatro anos. Quatro longos anos.

Conheci o Felipe durante as férias na casa de praia, onde passamos sete dias. Nossos pais eram amigos e companheiros de profissão. No entanto, como os pais de Felipe eram separados, raramente ele estava com o pai, apenas nas férias o visitava, pois morava com sua mãe em outra cidade. Isso estava prestes a mudar naquele verão, onde Felipe iria completar 18 anos e ingressaria na Academia da Força Aérea. Seu pai, assim como o meu, era militar. E Felipe desejava imensamente seguir a carreira do pai e estar mais próximo a ele.

Eu tinha 15 anos naquela época. Era uma jovem tímida e muito reservada. Como sempre vivi em uma base militar, meu pai era extremamente controlador e cuidadoso quando o assunto eram os rapazes que também viviam ali. Eu não tinha permissão para namorar e saía pouco de casa. Meu pai era tenente-brigadeiro. Era um homem muito respeitado em sua carreira. Por sua causa, os garotos temiam se aproximar de mim. Eu não me importava com aquilo. Eu nunca havia me interessado por nenhum garoto, até conhecer o Felipe.

Quando chegamos na casa de praia, o pai de Felipe veio nos receber. Ele estava hospedado em uma casa vizinha a nossa. Compartilhávamos o mesmo quintal, o que facilitou meus encontros com o Felipe mais tarde.  Ele nos ajudou com as malas e foi bastante gentil comigo e com a minha mãe. Conheci o Felipe naquela noite. Ele veio com o pai para o jantar e logo que nossos olhos se encontraram eu senti que de alguma forma aquele rapaz ficaria marcado em minha vida. E ficou. Naquela mesma noite.

Depois do jantar, minha mãe foi arrumar a cozinha e meu pai, junto com o do Felipe, foi para a sala. Eles queriam tratar de alguns assuntos particulares referentes ao trabalho, por isso pediram que Felipe e eu fôssemos dar uma volta.

Não se distanciem muito da casa — alertou meu pai. — E não demorem.

Meu pai confiava no Felipe devido à amizade com o pai dele. Do contrário, jamais me deixaria sozinha com um garoto.

Nos distanciamos da casa a passos lentos e tranquilos. Não havia pressa. A noite era linda. Não teria como ser de outra forma, já que estávamos à beira-mar. Uma leve brisa soprava e bagunçava um pouco os meus cabelos. Senti um arrepio quando Felipe passou a mão por eles. Ele percebeu que o seu toque causou alguma reação em mim, e me pediu desculpas. Mas eu não queria que ele tivesse afastado a mão. Queria senti-la mais em mim. Queria mais do seu toque, mas eu não tinha como dizer isso, eu era tímida e insegura com as palavras.

Depois de caminharmos por mais um tempo, eu disse que estava cansada e perguntei se poderíamos nos sentar um pouco. Ele concordou. E num gesto que me deixou um pouco encantada, tirou o seu casaco e o forrou sobre a areia. Eu me sentei sobre ele e arrumei um espaço para que Felipe pudesse se sentar também. Estávamos confortavelmente próximos. Seu braço encostava no meu. Quente e musculoso. Era a primeira vez que eu ficava tão próxima assim de um garoto. De alguma forma, Felipe parecia saber disso, por isso me perguntou se a nossa proximidade me incomodava. Eu gostei do seu jeito. Do fato de ele ser direto em suas palavras. De querer saber como eu me sentia e se importar com isso.

Admiramos um pouco o mar. E quando a brisa nos fez sentir um pouco de frio, nos recostamos ainda mais um no outro. Eu queria sentir mais do toque de Felipe, mas acho que isso não seria adequado para uma jovem feito eu, que fui educada de modo muito conservador.

Conversamos sobre nossas famílias e percebi que Felipe era um garoto triste. Ele sentia a falta dos pais juntos. Sentia falta de ter uma família completa. O sentimento de compaixão tomou conta de mim ao ouvir sua história.

A conversa estava tão envolvente que eu mal percebi que Felipe havia colocado seu braço sobre meus ombros e minha mão descansava em sua coxa. Só depois que o silêncio pairou entre nós foi que fiquei ciente da nossa proximidade. O mais sensato seria eu retirar a minha mão, mas seus músculos fortes estavam me deixando surpresa e curiosa. Nunca tive esse tipo de contato com um garoto e eu queria explorar mais daquilo. Juntando muita coragem, comecei a acariciar a sua coxa. Um gesto mais tímido no início, mas que depois, à medida que fui ganhando mais confiança, explorei com mais intensidade.

Percebi que a respiração de Felipe estava ficando mais profunda. Seus dedos também estavam mais firmes sobre o meu braço. Senti que sua mão estava quente. Imaginei como seria senti-la em outros lugares.

— Eu quero te beijar — Felipe me disse enquanto me olhava com bastante intensidade.

Olhei para os seus lábios. Grossos e vermelhos. Eu queria sentir como seria o seu gosto, mas eu nunca havia beijado ninguém antes.

Baixei a cabeça. Felipe percebeu que eu estava pouco à vontade e perguntou se eu já havia beijado alguém. Eu respondi que não. Ele segurou meu rosto com ambas as mãos, me fazendo olhar novamente em seus olhos, e disse que não precisávamos fazer aquilo naquele momento. Mas eu queria. Queria senti-lo. Mas não tinha coragem de dizer isso em voz alta. Então, passei meus dedos por seus lábios. Felipe tinha um rosto tão lindo. Devagarinho, beijei sua bochecha. Depois seu queixo. As mãos de Felipe estavam na minha cintura e me puxaram para mais junto dele. Seu corpo era quente, contrastando com o vento frio que passava por nós.

Não demorou muito e o beijo aconteceu. Seus lábios foram gentis no início, mas depois o desejo nos consumiu de tal forma que nossas bocas se uniram de um jeito quase feroz.

Naquela mesma noite, no quintal de casa, Felipe me teve por completo. Saímos escondidos de casa já quase madrugada. Poderíamos ter sido pegos, mas não fomos. Por isso a fuga se repetiu de novo e de novo... Durante os sete dias na casa da praia, eu pertenci ao Felipe.

 

***

 

A despedida foi dolorosa. Promessas foram feitas, mas eu não tinha certeza se seriam cumpridas. Eu chorei por semanas depois que voltei para casa. Durante sete dias eu havia deixado de ser uma menina e me transformado em uma mulher. Amei intensamente. Mas sofri com a mesma intensidade quando tive que voltar para casa e Felipe ficou em regime de internato na Academia da Força Aérea. Morávamos muito longe. E quando era permitido que ele voltasse para casa, era para perto da mãe que ele ia. Soube que ela estava muito doente. Precisava do filho com ela. E ela o teve até o dia em que faleceu.

Agora, quatro anos depois, eu tinha uma carta em minhas mãos. Felipe queria me ver. Mas agora eu tinha um problema. Agora eu estava casada. E agora eu tinha um filho. Um filho que meu atual marido nunca suspeitou que fosse de Felipe. Um segredo que mantive durante quatro anos. Um segredo que eu não saberia mais se ficaria guardado quando eu colocasse os olhos em Felipe.

Eu não conseguia imaginar qual seria a minha reação ao vê-lo. Eu não sabia se ainda o amava. Eu o amei durante sete dias. Eu me entreguei a ele como nunca me entreguei a ninguém. Eu era jovem, pura e ingênua. E todas as vezes que nos amamos foi lindo, foi perfeito. Mas éramos jovens e não estávamos destinados a ficar juntos naquele momento. Felipe precisava dar início a sua carreira. Eu teria feito o mesmo, se a maternidade não tivesse vindo primeiro.

— Mamãe, mamãe! O papai chegou — a vozinha do meu filho me tira do meu devaneio.

Ouço o barulho do portão da garagem sendo aberto. Em seguida, Vinícius entra em casa todo feliz ao ser recebido por um abraço bem apertado do filho. Do filho que ele sempre achou que foi dele.

Vinícius trabalhava na fazenda do meu pai. Eu o conhecia desde que era criança. Ele era filho dos caseiros. Quando nos tornamos adolescentes, percebi que ele sempre estava me olhando, me admirando, sempre estava por perto. Ele me amava. Mas sabia que era impossível que eu tivesse por ele os mesmos sentimentos. Era um amor que Vinícius nunca achou que pudesse ser correspondido.

E de fato não teria sido. Mas, depois que voltei da casa de praia naquele verão, eu só chorava. Eu sentia falta de Felipe todos os dias. O meu pai não fazia ideia do que estava acontecendo, Felipe e eu fomos muito discretos, mas à medida que fui emagrecendo e ficando abatida, meu pai suspeitou que eu estivesse doente e disse que passar uns dias na fazenda me faria bem.

Eu já sabia que estava grávida. Estava atrasada e isso nunca havia me acontecido. Eu estava arrasada. E com medo. Eu não sabia o que fazer. Eu não havia planejado nada. Mas, em uma determinada noite, enquanto eu estava sentada em um banco da varanda na fazenda, sozinha, triste e chorando, Vinicius se aproximou de mim, então eu soube. Soube o que precisava fazer.

Eu abracei Vinícius. Ele ficou surpreso no início, mas, lentamente, foi tocando meu corpo e correspondeu ao abraço. Ele não era como Felipe. Ele cheirava a capim e a um pouco de suor. Mas suas mãos calejadas causaram arrepios em minha pele.

Quando levantei o meu rosto e rocei meus lábios nos de Vinícius, ele não perdeu mais tempo. Me puxou para o seu colo e me beijou com tanta vontade que pensei que meus lábios fossem sangrar. Não foi difícil convencer Vinícius a entrar escondido pela janela do meu quarto mais tarde.

O que aconteceu entre nós naquela noite foi diferente do que aconteceu comigo e Felipe. Foi sem amor. Foi selvagem. Mas não foi ruim. Eu não era mais uma menina e tive que aprender a agir com a razão e deixar os sentimentos de lado.

Vinícius entrou pela janela mais algumas vezes e não ficou surpreso quando eu lhe disse que estava grávida.

Meus pais que ficaram surpresos. O casamento aconteceu semanas depois.

 

***

 

Vinícius me abraça e me dá um beijo nos lábios. Para minha surpresa, ele se tornou um excelente pai. Brinca com nosso filho e me trata bem. Não tenho do que reclamar. Mas a verdade é que eu sempre tive dúvidas se o amava como se deve amar a um homem. Eu o amo como um amigo, um companheiro... Mas, quase todas as noites, é em Felipe que ainda penso.

Eu já havia me conformado em ter Felipe apenas em meus pensamentos, então por que ele teve que mandar uma carta justamente agora? Será que eu deveria ir mesmo vê-lo? E quando eu o visse, deveria contar toda a verdade? Contar que temos um filho?

Olho para a minha sala e vejo Vinícius no chão brincando com o nosso filho. Eles parecem tão felizes. Eu teria coragem de estragar isso? No entanto, será que um dia eu não terei que dizer mesmo toda a verdade? Será que conseguirei manter esse segredo para o resto de minha vida?

Mais tarde, naquela noite, depois que nosso filho dormiu, Vinícius vem até mim em nosso quarto e diz:

— Você parece diferente hoje.

— Só estou um pouco cansada.

— Então vem cá. — Vinícius se senta atrás de mim e começa a massagear as minhas costas.

Lágrimas de culpa escorrem pelo meu rosto. Estou enganando a tantas pessoas. Tudo porque não tive coragem. Não tive coragem de dizer aos meus pais o que tinha acontecido na casa de praia. Não tive coragem de dizer que eu havia engravidado de Felipe. Ao invés disso, envolvi Vinícius na história. Me aproveitei do amor que ele sentia por mim. Como eu era covarde e miserável!

Só percebi que estava soluçando alto quando Vinícius me puxou para junto de si e disse:

— Ei, não fique assim.

Ele me abraçou apertado e um longo tempo depois, eu dormi em seus braços.

 

***

 

Levei quase uma hora dirigindo até o hotel em que Felipe estava hospedado. Eu precisava vê-lo e resolver de uma vez por todas a minha vida. Eu precisava arrumar um jeito de aquietar meu coração.

Quando Felipe abriu a porta do quarto, foi como ver o passado todo a minha frente, mas de uma forma diferente. Era como um sonho. Felipe foi cordial comigo e se mostrou feliz em me ver. Por um momento, achei até que ele estava bastante emocionado.

Ele estava tão diferente do garoto que conheci. Ainda era muito bonito e era um homem feito agora. Mas, ao olhar em seus olhos, não vi o rapaz por quem me apaixonei. Porque aquele rapaz só existia em meu passado, em minhas lembranças, nas recordações do meu coração. Por isso, quando ele perguntou pelo meu casamento, eu disse que ia bem. Quando ele perguntou se eu tinha filhos, eu respondi que sim. E quando ele perguntou se eu era feliz, eu não sabia a resposta, mas disse que sim mesmo assim. E ele se conformou com o que eu disse. E desistiu de mim sem nem mesmo lutar. Como se soubesse o mesmo que eu, que não se deve mexer numa história que já ficou para trás.

Fui embora com um aperto no peito. Eu não consegui dizer que o filho era dele. Mas não foi por falta de coragem. Foi por achar que aquele momento não era certo. Não era o mais adequado.

Voltei para casa não muito diferente de quando eu saí: infeliz e culpada.

Durante três dias me senti derrotada, chorando pelos cantos quando ninguém estava por perto. Até que no final do quarto dia, Vinícius me encurralou.

— Tenho notado a sua tristeza. Eu achei que você precisava de um tempo, por isso não falei nada. Mas agora já chega. Quero explicações. O que há com você?

Eu não aguentava mais tantos segredos. Então, eu falei a verdade. Coloquei para fora tudo o que eu havia escondido durante quatro anos.

Vinícius me ouviu em silêncio. Um silêncio que estava me destruindo por dentro. E depois de um longo tempo, ele me perguntou:

— Você ainda ama esse cara?

— Não.

De certa forma, era verdade. Eu ainda amava o que ele tinha sido para mim no passado. Não o homem que vi no hotel.

— Você contou a verdade para ele sobre o menino?

— Não.

Eu soluçava. E tremia.

Vinícius se aproximou de mim e disse:

— Quando você se entregou para mim naquela noite, eu sabia que alguma coisa estava errada. E sabia que você não me amava. Mas eu me contentei em aceitar o que você podia me dar naquele momento. Porque eu sempre lhe amei. E eu achava que esse amor nunca seria correspondido. Então, quando você se entregou a mim, eu me conformei com o pouco de sentimento que você podia dar. Mas, quando nos casamos, nos comprometemos. Você se comprometeu comigo. E prometeu me amar. É esse compromisso que devemos honrar. Eu não me importo que o garoto não seja meu filho de sangue. Porque ele é meu de coração. Eu acompanhei ele crescendo em sua barriga. Eu o vi nascer. Eu passei cada dia com ele desde então. Eu o segurei enquanto chorava. Eu vi o seu primeiro sorriso. Eu estava ao lado dele quando deu os primeiros passos. E agora não vou aceitar que nenhum filho da mãe apareça e destrua a minha família.

— Então, você me perdoa? — solucei.

— Eu já te perdoei.

— Então, você acredita que a gente pode ser feliz?

— Eu acho que a gente já é feliz.

Vinícius veio até mim e me abraçou. Nunca pensei que pudesse sentir um alívio tão grande. Ele tinha razão. Nós éramos uma família. E durante muito tempo eu vivi iludida pensando que amava outra pessoa quando na verdade o homem que eu amava estava bem ali, sendo o companheiro que eu precisava.

Eu aprendi que com o passar do tempo tudo muda: nós, nossos sentimentos. E algumas coisas só serão boas para nós se permanecerem como lembranças, sem interferirem no momento atual.

Conversei muito com Vinícius nos dias seguintes. Decidimos contar toda a verdade ao nosso filho quando ele fosse mais crescido. Se ele quisesse conhecer o pai biológico, respeitaríamos a sua decisão. Mas agora iríamos aproveitar a nossa vida e a paz que estávamos sentindo por termos resolvido tudo, por termos removido o grande obstáculo que havia entre nós.

Certa noite, quando perguntei ao Vinícius se ele era mesmo capaz de me amar depois de tudo o que fiz e se ficaríamos mesmo bem, ele disse algo que eu nunca esqueci:

O amor não tem que ser perfeito, menina. Ele só tem que existir.

 

FIM

 

Não falta amor.
O problema é que 
confundimos amor 
com perfeição.
E o amor-perfeito 
escolheu ser flor.

Zack Magiezi


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