O Taxista (Amostra)

8 de maio de 2017


O Taxista é um conto que escrevi e seu e-book está disponível na Amazon.


Um acontecimento lamentável havia mudado a vida de Clara. Ela não sabia o que seria de seus dias dali para frente. Seu casamento se aproximava do fim. Mas, Clara sequer podia imaginar que o percurso de táxi que a levaria até o encontro com seu ex-marido mudaria drasticamente o seu modo de pensar e de agir.

Veja uma amostra:



Mamãe, mamãe, ele chegou!
Sabrina entrou correndo no quarto de Clara enquanto a mãe terminava de escovar os cabelos em frente ao espelho. Ela quase não se reconhecia. Estava mais magra e com o olhar vazio. Será que um dia seria capaz de sorrir novamente?
Mamãe... a menina chamou mais baixo dessa vez. Um pouco assustada ao ver a mãe imóvel diante do espelho.
Oi, querida, eu ouvi. Já estou indo ­ falou Clara com um sorriso forçado no rosto. A quem ela queria enganar?
Clara deu um beijo na filha e disse:
Volto logo.
Você vai encontrar o papai?  perguntou a menina entusiasmada.
Sim, querida.
Ele vai voltar?
Não, meu bem. Nós já conversamos sobre isso.
Eu sei que ele vai voltar! Eu pedi ao meu amigo anjo que trouxesse ele de volta!
Sabrina, pare falou Clara com firmeza. Nós já conversamos um milhão de vezes sobre isso. O papai e a mamãe ama você. Nós sempre vamos amar você. Mas simplesmente não podemos mais ficar juntos. Clara abraçou a filha para que ela não percebesse as lágrimas que ameaçavam cair. Mas a menina, esperta, percebeu o gesto da mãe.
Não chore, mãezinha. Ele vai voltar. Eu sei.
Clara não queria discutir esse assunto mais uma vez. Não naquele momento. Ela estava indo encontrar Roberto para acertarem os últimos detalhes do divórcio.
Há um mês o marido havia saído de casa. Há um mês o mundo de Clara havia desabado. Ela se obrigava a cada manhã a ficar de pé e cuidar, como podia, dos afazeres diários. Tinha uma filha para criar, tinha um emprego e muitas responsabilidades a cumprir. Não podia simplesmente desistir de tudo, embora, no íntimo, essa fosse a sua vontade. Ela se sentia exausta. Não aguentava mais os comentários dos familiares e amigos dizendo “Isso vai passar”, “Você vai ficar melhor sem ele”, “Eu lhe disse que ele não prestava”. Nada disso servia de consolo, pelo contrário, só deixava Clara mais irritada e com vontade de se afastar de todo mundo.
Clara respirou fundo, contou mentalmente até 10 e saiu de casa. O taxista estava à espera.
Bom dia! ele falou com um sorriso gentil, enquanto abria a porta para ela.
Bom dia cumprimentou Clara sem muito entusiasmo.
O interior do carro tinha um perfume agradável. Clara imediatamente reconheceu o cheiro. Tinha o cheiro da sua infância. Casa da avó, abraço apertado do avô e brincadeiras com os primos no quintal. Quando a vida havia deixado de ser tão simples? Agora as lágrimas corriam livremente. Não se importava com o taxista. Não se importava em reprimir mais nada. Agora, longe da filha, podia finalmente desmoronar.
O taxista aguardava pacientemente que Clara lhe informasse o destino. Quando ela finalmente percebeu isso, disse um pouco sem jeito:
Desculpa. Parque São Carlos.
Não se preocupe respondeu o taxista e pôs o carro em movimento.

***

O dia estava ensolarado, mas não muito quente. Clara havia enxugado o rosto que havia ficado encharcado de lágrimas e olhava através da janela o movimento habitual das ruas. Ela estava mais calma, sentia apenas o vazio dentro do peito que agora era seu companheiro constante. Quando o motorista parou no semáforo, um jovem casal atravessou pela faixa de mãos dadas e sorrindo um para o outro. Clara se lembrou de quando Roberto e ela eram como aquele jovem casal. Despreocupados, felizes, passeando de mãos dadas pelas ruas da cidade. Não era preciso muito para eles ficarem felizes naquela época. A companhia um do outro bastava. Eles começaram a namorar ainda no Ensino Médio. Eram jovens e imaturos, mas se amavam e estavam dispostos a ficarem juntos para o resto de suas vidas. Durante muitos anos esse fora o objetivo de vida deles. Durante muitos anos Clara acreditou que esse sonho seria realidade.
Dia lindo, não?  perguntou o taxista.
Clara não estava a fim de conversa e apenas acenou, embora não tivesse certeza se o taxista tivesse visto ou se já tinha voltado sua atenção ao trânsito.
É um bom dia para ir ao parque ­ insistia o taxista em puxar conversa.
Dessa vez, Clara pensou que conversar um pouco seria bom. Pela primeira vez, ela olhou para o taxista com mais atenção e percebeu que ele era bem jovem.
Sim, eu gosto do parque São Carlos, embora hoje não esteja sendo um bom dia. Na verdade, Clara não fazia ideia se seus dias voltariam a ser bons...
Sim, eu percebi. Quer conversar sobre o assunto?
Clara não queria conversar sobre o assunto. Ainda mais com um desconhecido. Mas, de repente, ela percebeu que precisava desabafar. E era até melhor que fosse com um estranho. Não iria vê-lo novamente mesmo. E ele já a tinha visto tão vulnerável, chorando feito louca no banco traseiro de seu carro. Não havia mais do que se envergonhar.
Meu marido me traiu. Estamos nos divorciando. Na verdade, estou indo encontrar com ele para acertarmos os últimos detalhes do divórcio. É a primeira vez que vamos nos encontrar pessoalmente depois... Depois que ele saiu de casa. As lágrimas ameaçaram cair novamente. Clara não pretendia ter dado tantas informações, mas agora que começou, ela queria desabafar, colocar para fora tudo o que a estava sufocando nos últimos dias. Portanto, continuou:
Ele era um bom marido, sabe? Eu jamais poderia imaginar que ele pudesse fazer algo assim! Nós temos uma filha, tínhamos uma família... Será que ele não percebeu que iria destruir tudo? Será que isso não importa para ele?
Tenho certeza de que ele se importa falou o taxista de modo complacente.
Como? Você nem o conhece!
Você mesma disse que ele era um bom marido. E, eu vi o modo como você chorou. Se fosse por alguém que não valesse a pena eu acho que você não estaria assim. Se ele era um bom marido, acredito que ele também esteja sofrendo.
Mas foi uma escolha dele! Ele acabou com a nossa família!
Às vezes a gente age sem pensar nas consequências refletiu o taxista. Como você descobriu a traição?
Clara não sabia se queria reviver tudo aquilo... Mas ela já havia começado a contar tudo mesmo.
Eu escutei uma ligação tarde da noite. Eu havia acordado e percebi que ele não estava na cama. Fui atrás dele e percebi que ele falava com alguém ao telefone. Achei estranho uma ligação àquela hora, e fiquei escutando sem que ele percebesse. Ele falava baixo e não dava para entender tudo, mas percebi que ele dizia para a outra pessoa deixá-lo em paz, que não havia significado nada. Entendi tudo de imediato. Voltei para a cama com o coração a mil. Fingi que estava dormindo quando ele voltou. E quando ele pegou no sono eu levantei e fui verificar as mensagens no celular dele.
“Claro que ele havia apagado muitas mensagens, mas as últimas ainda estavam lá. Era uma colega de trabalho. Eles haviam dormido juntos.
Comecei a chorar descontroladamente e ele acordou. Me viu com o celular na mão e entendeu tudo.”
E qual foi a reação dele?
Ele chorou também. Disse que não havia significado nada, que se arrependeu... Mas se não havia significado nada, por que aconteceu?
Como eu falei, às pessoas não costumam pensar nas consequências... Agem por impulso. Depois de uma pausa, o taxista perguntou: O casamento de vocês estava passado por um momento difícil, não? Digo, antes da traição?
Ah, não. Você não vai me dizer que isso era motivo...
Não. Não estou tentando justificar a atitude dele. Nem estou dizendo que ele agiu de modo certo. Ele errou. Mas você não tem interesse em saber o que deu brecha para que uma pessoa entrasse no casamento de vocês?
Eu já me questionei inúmeras vezes. Nós estávamos nos desentendendo um pouco. Estávamos cansados, estressados, mas isso não era motivo. Eu também não estava feliz, mas jamais pensei em traí-lo.
Não, Clara, claro que não há nada que justifique. Mas as pessoas pensam de modo diferente, sabe? Principalmente os homens.
Eles já estavam flertando há um tempo. Antes mesmo do nosso casamento entrar em crise. Uma outra colega de trabalho dele me falou.
Veja bem. Quer um conselho?
Não havia motivos para recusar. Clara já havia exposto toda a situação para aquele desconhecido mesmo. Ela acenou com a cabeça.
Não envolva mais ninguém nessa história. Não procure saber com os colegas de trabalho dele o que aconteceu. Nem procure informações sobre essa mulher. Simplesmente não procure saber nada sobre ela. Converse com o seu marido. Converse abertamente, sem brigas, sem discussão nem acusações. Não o questione sobre a traição. Talvez ele nunca tenha uma resposta satisfatória para lhe dar. Talvez nem ele mesmo entenda os motivos que o levou a praticar tal ato. Talvez ele só quisesse um momento de refúgio. Claro, ele não podia ter feito escolha pior, mas, no momento, isso não ocorreu nos pensamentos dele. Ele não avaliou as consequências.
“Um homem sofre por sua família. Embora todos digam que as mulheres são mais sensíveis, que sofrem mais... Isso não é de todo verdade. Os homens são muito sensíveis também. Mas eles não lidam com os sentimentos da mesma forma que as mulheres.
“Quando um homem se casa, ele se sente responsável pela sua família. Mesmo que a mulher trabalhe fora, ele quer ser o principal provedor do lar. A responsabilidade pelo bem-estar da família é dele. Mesmo que a mulher assuma mais responsabilidades, esteja à frente da organização do lar, da educação dos filhos, passe mais tempo com as crianças, etc., o homem sente que é função dele supervisionar para que tudo esteja bem. Quando as coisas não vão bem, mesmo que as mulheres pensem que seus maridos estão muito omissos, na verdade eles não estão. Estão buscando meios de resolver a situação. Quando eles não conseguem encontrar soluções, eles se afastam fisicamente. É o orgulho de reconhecer que estão falhando. Que não estão cumprindo bem o seu papel. Mas, pode ter certeza, eles estão sofrendo.”
“Geralmente, em momentos de crise, a esposa só consegue enxergar os defeitos do marido, o que há de ruim na relação, e fecha os olhos para as pequenas coisas boas que o marido está se esforçando em fazer. Ele se sente um fracasso. Em contrapartida, no trabalho, há uma colega que está satisfeita e maravilhada com tudo o que ele faz e não cansa de elogiá-lo. Um homem precisa de elogios. Ele precisa de reconhecimento pelo que faz. O seu marido pode até nem ter se apaixonado por essa colega. Ela apenas satisfez o seu ego e forneceu o que ele mais precisava no momento.”
“Se o seu marido diz que não foi nada importante, pode ser que ele esteja falando a verdade. Isso não diminui o erro, nem justifica, mas pelo menos esclarece um pouco mais as coisas, não acha?”
Clara estava surpresa com a sabedoria do rapaz. Ele parecia muito jovem para ter toda aquela experiência. Como se adivinhasse seus pensamentos, o taxista falou:
Pego muitos passageiros por dia. Acredite, eu já ouvi todo tipo de história. Inclusive de casais à beira do divórcio.
Clara não sabia o que dizer. Estava refletindo sobre muitas coisas. Parecia passar um filme em sua mente sobre a sua história com Roberto. Os momentos felizes, o dia do casamento, o nascimento da filha, os momentos de intimidade... Ela também se lembrou das brigas, do afastamento, e percebeu também que ela não estava fazendo muitas coisas para salvar a relação. Sempre estressada quando o marido chegava em casa. Sempre o acusando por tudo de ruim que acontecia no dia a dia deles.
Você já pensou continuou o taxista interrompendo o devaneio de Clara —, que o divórcio talvez não seja a melhor solução?
Eu jamais seria capaz de perdoar uma traição.
E você acha que vai ser mais feliz convivendo anos e anos com o seu orgulho ao invés de aprender a perdoar?


***

Espero que tenham gostado dessa amostra. O conto completo está à venda na Amazon por apenas R$ 5,99.

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