Doce Perdão - Um conto de Natal

 Olá, apreciadores da leitura!

Mais uma vez vou deixar um conto meu disponível para vocês. 


Estou atrasada. Acordei cedo, minhas malas estavam prontas desde o dia anterior, mas passei muito tempo me despedindo do Ricardo. Agora, no táxi a caminho do aeroporto, lembro de nossa despedida e dou um sorriso. Ricardo é sempre muito carinhoso, principalmente quando estamos a sós em nosso cantinho, nossa casa. Sou feliz com ele. Muito feliz. Mas há algo que ainda me incomoda em minha vida. Não em minha vida com ele, mas com o meu passado.

Chego ao aeroporto e vou direto para o check-in. Não levo muito tempo, pois já havia adiantado tudo pela internet. Na sala de embarque, envio algumas mensagens para Ricardo. Nunca passamos duas semanas longe um do outro. Essa será a primeira vez. Estou longe dele há apenas duas horas, e já sinto sua falta. Falta do seu abraço, do seu toque, do seu cheiro.

Provavelmente a essa hora ele está a caminho do trabalho. Só verá minhas mensagens mais tarde, quando chegar ao escritório. Imagino o sorriso dele ao ler o que escrevi. O sorriso dele me fascina. Foi a primeira coisa que eu notei quando o conheci. Lembro de ter pensado que queria ver aquele sorriso para o resto de minha vida. Tive sorte, porque sete meses depois, estávamos casados. E há cinco anos acordo todos os dias com ele sorrindo ao meu lado. Como vou sobreviver a essas duas semanas sem ele?

Suspiro fundo e me levanto. É hora de partir. É hora de voltar ao meu passado para resolver algumas coisas.

No avião, coloco os fones e vou escutar música. Quem sabe eu consigo cochilar um pouco. Não dormi quase nada durante a noite, pois Ricardo e eu estávamos nos despedindo. Tenho certeza de que estou com um sorriso bobo no rosto ao lembrar de cada detalhe da noite passada. Melhor pensar em outra coisa. Foco meus pensamentos no objetivo dessa viagem. Lembro da minha família, dos meus pais, da minha irmã... e logo os meus pensamentos se voltam para aquele terrível dia em que eu saí de casa. Durante sete anos eu afastei esses pensamentos, agora eles estão vindo à tona me fazendo lembrar de cada palavra e cada lágrima que derramei... Tento não chorar, mas é inevitável. Tento pensar em outras coisas, mas agora que comecei a chorar não consigo mais parar.

Pego minha bolsa à procura de um lenço. E nesse momento sinto uma mão tocar levemente o meu braço. Era o rapaz que sentou ao meu lado. Um jovem de cabelos loiros um pouco compridos, com uma franja irregular caindo na testa. Olhos azuis e um sorriso gentil.

Você está bem? — ele me pergunta. E parece genuinamente preocupado.

— Estou — digo e rapidamente enxugo as lágrimas em meu rosto. Sei que ele já percebeu que eu estava chorando, mas tento disfarçar mesmo assim.

— Sabe... a pergunta certa é “posso ajudar”? Porque é óbvio que você não está bem. Se estivesse não estaria chorando.

Eu poderia dizer que isso não era da conta dele. Mas a maneira gentil de como ele fala me abranda um pouco. Então apenas dou um sorriso educado e digo:

— Estou melhor.

— Que bom. Quer conversar?

Parece que ele não vai desistir assim tão fácil. Não sei se quero conversar com esse garoto. Por isso, não respondo de imediato e olho pela janela. Mas não há nada o que se ver a não ser o azul do céu. Então, volto a olhar para ele. O garoto sorri mais uma vez e estende sua mão para mim.

— Meu nome é Adriel.

Pego sua mão e me apresento.

— Paty.

— Então, Paty, está viajando a trabalho?

— Sim. Mais ou menos.

Ele parece não entender, e me olha de um modo que deixa isso claro.

— É uma viagem de negócios, mas talvez eu aproveite essa viagem para rever algumas pessoas.

— Sua família?

— Sim.

— Faz tempo que vocês não se veem?

— Sete anos.

— É bastante tempo. Mas vocês sempre mantêm contato?

Não sei como responder. Se eu começar a falar, talvez revele coisas demais. Coisas que fiz questão de esquecer. E eu nem conheço esse garoto. Por que me abriria com ele?

— É difícil falar sobre coisas que a gente tenta esquecer, não é? — ele me pergunta.

— E como você sabe disso? Que eu quero esquecer alguma coisa?

— Você estava chorando... E não vê sua família há sete anos. Algo a magoou e a afastou, não foi?

— Você é estudante de psicologia?  

Agora ele sorri mais largamente. Dentes brancos e perfeitos. Esse garoto é muito fofo. Imagino o efeito que ele causa nas jovens da idade dele.

— Não, não se preocupe.

— Ah, que bom. Porque eu não ia querer que a minha história virasse um estudo de caso.

— Se essa é a sua preocupação, não há o que temer. Só quero ouvir essa sua história. E quem sabe eu possa lhe ajudar de alguma forma.

E é assim que eu desabafo. Conto toda a minha vida para o estranho ao meu lado.

— Quando eu tinha 17 anos, comecei a namorar um garoto do meu colégio, o Matteo. Foi o meu primeiro amor e eu estava completamente envolvida. Era capaz de fazer qualquer coisa por ele. Nós namoramos durante um ano. E foi algo muito intenso o que aconteceu entre nós. Eu estava certa de que o nosso namoro iria durar depois que terminássemos os estudos e fazia planos com ele para irmos para a mesma faculdade. Eu achava que ele me amava tanto quanto eu o amava. Aliás, eu tinha certeza disso. Tanto que eu nem desconfiei de nada... Eu confiava plenamente no amor dele.

Paro um pouco de falar porque as lágrimas voltaram a cair. Adriel, gentilmente, pega o lenço que deixei cair ao meu lado, e me entrega.

— Ele também estava namorando a minha irmã. Nós duas ao mesmo tempo. Só que parece que ele gostava mais dela. Porque foi a ela quem ele escolheu.

— E você nem imaginava... — ele diz como uma afirmação.

— Sim. Eu contava tudo para ela. Éramos muito amigas. Eu falava para ela sobre o Matteo, o quanto que eu o amava, falava sobre tudo o que acontecia entre ele e eu.

— E os seus pais? Como eles lidaram com tudo isso?

— Essa foi a pior parte. Quando eu descobri... Nós estávamos na nossa casa. O Matteo estava lá. Ele tinha passado a tarde conosco. Nós iríamos sair, mas antes eu disse que precisava tomar um banho. Então, fui para o meu quarto. Mas, eu acabei esquecendo algo na sala, e voltei para buscar. Quando cheguei lá eu vi os dois se beijando. Eu fiquei em choque. Não disse nada, apenas me escondi e fiquei observando os dois. E, pelo que eu vi, entendi que eles já estavam juntos há um tempo. Não foi apenas um beijo de momento. Eles estavam realmente juntos.

“Voltei para o meu quarto, me joguei na cama e fiquei lá aos prantos. Depois de um tempo o Matteo foi me procurar e quando me viu chorando percebeu que eu havia descoberto tudo. Descobri que ele iria terminar comigo assim que as aulas acabassem. E que nós não íamos para a mesma faculdade. Ao invés disso, ele ia para outra cidade com a minha irmã.

Quanto aos meus pais, eles ficaram do lado da minha irmã. Apenas disseram que o Matteo precisava se decidir e, quando ele escolheu a Bruna, pelos meus pais, tudo bem. Me disseram que esse tipo de coisa acontecia... e que eu apenas aceitasse. Porque os dois se amavam e iriam se casar em breve.

Não consegui mais viver com eles depois disso. Então eu fui embora.”

— E eles nunca foram lhe procurar?

— Eu pedi que não, que eles não me procurassem. Eu fui embora com pouco dinheiro, mas consegui ficar na casa da tia de uma amiga minha por um tempo. Depois consegui emprego como secretária em um escritório de advocacia. Meus patrões foram muito bons comigo. Quando eu contei toda a minha história, eles me acolheram. Eu fui morar com eles, eles me ajudaram a pagar a faculdade... Escolhi fazer Direito. Então, já estava com meu emprego garantido no escritório deles quando conseguisse o meu diploma. Profissionalmente, eu me dei bem.

— E como conheceu o seu marido? — Adriel aponta para a aliança em meu dedo quando olho para ele.

— Ele é o filho desses meus patrões. Mas não morava mais com eles quando fui acolhida. Ele já estava na faculdade em outra cidade. Quando se formou, voltou para trabalhar com os pais, e eu o conheci. Nos apaixonamos de imediato. Já haviam se passado dois anos desde que eu terminara com o Matteo. Eu já havia superado.

— Mas não superou o que a sua irmã fez... — Mais uma afirmação.

— Não. O Matteo era um garoto por quem eu havia me apaixonado... Mas ela era a minha família. A minha melhor amiga desde sempre. Ela devia ter me contato quando começou a se envolver com ele.

— Então você não conseguiu perdoar? Nem ela e nem seus pais?

— Depois de um tempo morando fora, cuidando da minha vida... Eu fui esquecendo o que aconteceu... fui curando as feridas. Eu recebia e-mails dos meus pais, mas nunca os lia. Com exceção dos que eles mandavam no final do ano, que era sempre um convite para a Ceia de Natal. Eu nunca fui... Nunca tive vontade.

— Até esse ano...

— Esse ano os meus sogros, que são meus chefes, me mandaram resolver algumas coisas na cidade em que os meus pais moram. Na verdade, eles tramaram essa viagem logo agora no final do ano. Acho que para que eu pudesse rever essa questão de participar da Ceia.

— E você vai?

— Ainda não decidi.

— Acho que você vai — ele disse e sorriu para mim.

— Não sei se é o melhor...

— Claro que é. Você precisa perdoá-los. Eles precisam do seu perdão. Vocês precisam curar essas feridas que estão abertas há tanto tempo.

— Não é assim tão fácil. Eu acho que, na verdade, eu já os perdoei um pouco, eu só não sei mais se quero eles fazendo parte da minha vida. Só um milagre para fazer a gente se dar bem de novo.

 — Paty, o perdão realiza milagres. Faça a sua parte e deixe o resto acontecer. Faça o que sabe que é certo, e deixe o milagre acontecer.

Choro mais um pouco. Dessa vez uma pequena lágrima, calma e serena, escorre pelo meu rosto. Adriel segura o meu queixo e faz com que eu olhe para ele. Com os polegares, ele enxuga a minha face. Seu semblante é tranquilo. Quase angelical. E ele diz:

— Você é uma boa pessoa, Paty. A vida nem sempre é justa. Às vezes parece até ser cruel. Mas não é bem assim. Quando tudo está difícil, é quando temos a oportunidade de mostrar quem realmente somos. Você foi em busca da sua felicidade, e a encontrou. E agora, em seu íntimo, você quer consertar as coisas. Porque sabe que não será plenamente feliz enquanto não cicatrizar suas feridas, enquanto não der o perdão que está aí, dentro de você, pronto para ser libertado. Não há porque prendê-lo mais, não é? O perdão é um presente que nós precisamos dar, ofertar. E você está pronta para isso.

Passo um tempo refletindo sobre o que ele me diz. E depois pergunto:

— Onde você aprendeu a ser tão sábio? Você é tão jovem...

Ele sorri mais uma vez e diz:

— Gosto de conversar com as pessoas. Ouço um pouco aqui, um pouco ali... e vou aprendendo algumas coisas.

— Então você deve conhecer muita gente.

— Sim. Eu viajo muito a trabalho. Isso me faz conhecer muitas pessoas.

Continuamos a conversa e eu mal percebi o avião aterrissando. A viagem tinha acabado. Era hora de ir para o hotel e reorganizar os meus planos. Adriel apertou mais uma vez a minha mão e se despediu de mim.

Me senti estranha quando entrei no aeroporto lotado. Pessoas andando apressadas de um lado para o outro. Eu acabara de ter uma conversa tão intensa com um estranho. Olhei para os lados para ver se via Adriel em algum lugar, mas ele havia simplesmente sumido. Peguei um táxi e fui para o hotel. De lá eu ligaria para os meus pais.

 

***

 

Duas semanas depois eu estava mais uma vez no aeroporto, dessa vez de volta para o meu lar. Era dia de Natal e o aeroporto estava quase vazio. Só algumas pessoas viajando de última hora. Eu tinha combinado com o Ricardo que passaria a véspera de Natal com os meus pais e o dia de Natal com ele, em nossa casa. E daqui a três horas eu já estaria lá, em seus braços, onde é o meu lugar.

O avião já decolou e eu estou sentada sem ninguém ao meu lado. Dessa vez terei que viajar em silêncio, quieta com os meus pensamentos. Lembrar de Adriel me faz sorrir. Que garotinho mais simpático! Faço uma oração silenciosa agradecendo a Deus por tê-lo conhecido. E peço que o Senhor o proteja. Não sou muito de fazer isso, mas esse Natal está mesmo mexendo comigo.

Lembro dos meus pais, da minha irmã e da família que ela formou com o Matteo. Me sinto triste e feliz por eles. Feliz porque o reencontro foi emocionante e lavamos nossas feridas. Triste porque Matteo não é um bom esposo e já traiu a minha irmã várias vezes. Em outra época, eu poderia ter me sentido satisfeita com isso. Por ela passar pelo mesmo que fez comigo. Mas esse seria um sentimento muito mesquinho. Não é porque fui traída que desejo o mesmo para as outras pessoas. Pelo contrário, não desejo que ninguém passe pelo o que eu passei. Nem mesmo a minha irmã. Eu preferia ter escutado que eles eram muito felizes, que Matteo realmente a amava. Mas ele só estava se divertindo com nós duas. E escolheu Bruna porque ela já estava grávida. Eles foram morar em outra cidade assim que fui embora, mas como Matteo vivia constantemente saindo de casa para se divertir com outras mulheres, deixando minha irmã sozinha, ela voltou para a casa dos meus pais. Depois de um tempo, ele foi atrás dela. E vivem lá até hoje.

Eu poderia ter me sentido vingada quando Bruna me disse que se arrependeu de tudo o que fez e que teria feito tudo diferente agora. Mas o que eu senti foi pena. De todo o meu coração, eu espero que o Matteo mude e que eles sejam felizes.

Quanto aos meus pais. Nunca os vi chorarem tanto. Eles tinham um peso enorme na alma por não terem sido mais duros com Matteo e o expulsado de nossas vidas. Eles sentiam muito a minha falta e pedia a Deus todos os dias para que eu voltasse e os perdoasse. Foram muitas conversas durante essas duas semanas até que tudo ficasse resolvido entre nós. Mas as feridas finalmente foram fechadas. E a mais perfeita paz reinou em nossa Ceia de Natal na noite de ontem.

A minha alma está leve.

O meu passado não me atormenta mais.

É isso o que o perdão faz.

 

***

 

Chego em casa e o cheiro que sinto é maravilhoso. Ricardo está na cozinha. Ao ouvir o barulho da porta, ele vem até mim e me abraça bem apertado. Como senti falta disso.

— Eu poderia ter ido lhe buscar — ele diz em meu ouvido.

— Mas eu queria que esse nosso reencontro fosse a sós. Sem ninguém para nos observar.

— Entendi. Íntimo demais — ele diz e me beija. De início de modo delicado. Depois com mais urgência, demonstrando o quanto sentiu a minha falta.

O que eu tenho com o Ricardo nem se compara com o que eu tive com o Matteo. O Matteo foi a paixão da adolescência. Um relacionamento irresponsável. Imaturo. Se eu me arrependo? Não. Se não tivesse acontecido tudo o que aconteceu, eu não teria ido embora, eu não teria conhecido pessoas tão maravilhosas que me acolheram, os meus segundos pais. E eu não teria conhecido o Ricardo, o meu grande, único e verdadeiro amor. Que coisa estranha é a vida, não? Quando perdemos algo é para termos a chance de conseguirmos outras coisas melhores.

Tudo pelo que passei serviu para que eu pudesse aprender. Aprender a lidar com as pessoas, comigo mesma. Aprender a perdoar, a aceitar, a ouvir... Aprender a chorar e a sorrir. Aprender que as coisas ruins não são para nos derrubar, mas para nos fazer crescer. Para nos fazer mais fortes. Para aprendermos a valorizar os momentos bons. Quando a vida é fácil demais, a gente não aprende. Não valoriza o que temos, o que conquistamos.

E é isso que estou fazendo agora, com o Ricardo, nesse dia de Natal. Estamos sentados em nosso sofá, abrindo os nossos presentes entre um beijo e outro. Estamos felizes e somos gratos por isso, pois sabemos que já temos o melhor de todos os presentes, que é o nosso amor. E teremos um ao outro. Sempre.

 

FIM

 

 

“Portanto, digo-vos que vos deveis perdoar uns aos outros; pois aquele que não perdoa a seu irmão suas ofensas está em condenação diante do Senhor; pois nele permanece o pecado maior.

Eu, o Senhor, perdoarei a quem desejo perdoar, mas de vós é exigido que perdoeis a todos os homens.” (D&C 64:9-10)


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